Jirau: o Brasil entra no século XXI

Jirau: o Brasil entra no século XXI
Não é preciso ler mais que algumas notícias sobre a revolta de Jirau para perceber que ela talvez represente algo próximo do efetivo nascimento político do século XXI no Brasil. Nota-se isso não tanto pela inédita dimensão das expressões usadas – “controlar a revolta”, “pacificar os trabalhadores rebeldes” – quanto pelo relativo silêncio da ala sensacionalista da mídia, o que talvez revele o verdadeiro atordoamento em que se encontram as autoridades e a imprensa. Na invasão do Complexo do Alemão podia-se fazer pirotecnia, falar em liberdade e justiça, em lei e ordem, em mocinho e bandido etc. Em Jirau, não: a coisa, desta vez, é realmente séria. Dilma e TST, CUT e Força Sindical, Nelson Jobim e José Eduardo Cardozo, Camargo Corrêa e Odebrecht, Luciano Coutinho e Sérgio Rosa: não houve um deles que não sentisse um profundo arrepio na espinha quando os barrageiros do Rio Madeira, em coro, gritaram que Jirau havia acabado.

No dia 15 de março de 2011, poucos dias antes da visita de Barack Obama ao Brasil, vinte mil trabalhadores tomaram a maior obra em andamento na América Latina, paralisaram a construção e manifestaram na prática sua revolta contra as péssimas condições de trabalho: incendiaram cinco dezenas de ônibus e carros da empresa, destruíram alojamentos, equipamentos e instalações. Protestos contínuos tornaram as estradas da região intransitáveis. No mesmo dia, para conter os manifestantes, a Polícia Militar prendeu quarenta pessoas e agrediu outras tantas. Não foi suficiente: no dia 17, os protestos são retomados e um canteiro de obras inteiro é destruído. No dia 18, a pedido do governador, chegam a Rondônia cerca de 100 homens da Força Nacional de Segurança Pública, organização formada por PMs egressos de vários estados do país, criada para auxiliar os estados em “situações de emergência”. São apenas a primeira parte de um contingente de 600 homens confirmados pelo Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT), para ajudar o governo estadual a manter a “normalidade”. Até o presente momento, o Exército e Aeronáutica seguem a postos para auxiliar logística e militarmente na tarefa.

 

Preocupada com a obra, a Camargo Corrêa, principal empresa gestora do empreendimento, evacuou repentinamente a barragem, expulsando em um só dia mais de 10 mil trabalhadores para Porto Velho, a capital do estado. Imediatamente, a construção da usina de Santo Antônio, hidrelétrica irmã gêmea de Jirau, também foi interrompida pela Odebrecht, devido ao medo da construtora de que os protestos chegassem àquela obra. Nas ruas da capital, entre os milhares de desalojados pela empresa, perdura o sentimento de revolta – sem emprego, sem casa, muitas vezes sem documento, operários que vieram do Brasil inteiro para trabalhar como barrageiros estão, no presente momento, vivendo como párias. Ao mesmo tempo, os moradores da cidade queixam-se de sua presença, temendo saques e vandalismo. O clima é tenso, e ainda será necessário certo tempo para que saibamos a direção para a qual evoluirão os acontecimentos.

 

Uma coisa, porém, parece bastante perceptível: se na História mundial podemos chamar de “prelúdio” do século XXI a cadeia de eventos marcantes sucedidos em sua primeira década – começando com o 11 de setembro de 2001, passando pela Guerra do Iraque, pela crise de 2008 e terminando com a vitória de Barack Obama – em contraposição ao efetivo “nascimento” político do século – sinalizado pelas revoltas do Oriente Médio –, podemos dizer que, no Brasil, o “prelúdio” do século foram os dois governos Lula, o PAC, a marolinha e a vitória de Dilma Roussef, ao passo que o seu efetivo nascimento – isto é, as reais consequências políticas que pareciam encobertas por aquela cadeia de eventos deslumbrantes – consiste no “retorno do recalcado” expresso pela fortíssima revolta dos operários do Rio Madeira.

 

Pois a revolta em Jirau e a realidade por ela descortinada contradizem todo o discurso de paz social e fim da luta de classes propagado aos quatro cantos pelo staff de Dilma, principalmente durante a campanha presidencial de 2010. Longe da corada classe C que aparecia nos vídeos de João Santana, a verdade do trabalho na barragem de Jirau era a do isolamento e da exploração covarde – cerca de 4.500 trabalhadores iam todos os dias para o batente ameaçados de demissão; a maior parte dos empregados dormia em alojamentos  feitos para milhares de pessoas, enfrentando filas para tudo; por fim, o trabalho escravo e a violência dos seguranças da empresa eram um constante pesadelo. E não se culpe o “mercado mau”, eterno adversário do “estado bom” petista pelo que acontecia: ao mesmo tempo em que parece ser o oposto do que Dilma e seu partido falam a respeito dos anos em que estão no poder , Jirau é mais ou menos o retrato fiel da política neoestatista do PT. Sem os recursos do BNDES e a intervenção do IBAMA, da Polícia Federal e de outros órgãos estatais (atualmente, das próprias Forças Armadas…),  aquela obra jamais teria sido possível.

 

É cada vez mais evidente que, na visita de Obama ao Brasil, que se inciará nos próximos dias, tanto ele quanto Dilma parecerão estar em um lugar inadequado. Obama, no Brasil, falando de paz, enquanto os EUA se preparam para invadir a Líbia com o apoio da ONU. Dilma, em Brasília. acompanhada de um presidente popstar que ajuda a realçar o papel de nova potência econômica interpretado pelo Brasil, no exato instante em que trabalhadores na Amazônia são massacrados pela Força Nacional de Segurança Pública por ordem de um de seus ministros. Esse deslocamento, porém, não é aleatório, mas ocasionado pela própria luta de classes. De certa maneira, o mundo está acordando para grandes revoltas populares. Mesmo o mito do primeiro presidente negro e da primeira presidente mulher (e ex-guerrilheira), que por alguns anos foram capazes de  (falta algo) não são capazes de ocultar essa realidade. O século XXI se inicia em sangue e luta, e nem promessas e nem esperanças vagas serão capazes de manter a História estagnada.

 

 

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